top of page
Buscar

O corpo aprende onde vive

31 de ago.
4 min de leitura

Atualizado: 4 de set.

Corporalidade, cultura e relações



Durante sete anos, enquanto peregrinava e vivia em um ashram na Sibéria, viajava ensinando movimento, grande parte da minha vida cotidiana acontecia perto do chão. Sentávamos, escutávamos, aprendíamos e nos movimentávamos sem a presença constante de cadeiras e mesas. Na época, eu não pensava nisso como uma maneira específica de organizar a vida corporal. Era simplesmente o ambiente no qual a vida acontecia, e meu corpo aprendia gradualmente a habitá-lo.


Anos mais tarde, durante uma viagem pelo vale do Langtang, no Nepal, percebi outra forma de continuidade entre o corpo e o chão. As pessoas se agachavam enquanto esperavam, trabalhavam, preparavam alimentos ou conversavam. Sentavam-se perto do chão e carregavam crianças e objetos como parte do movimento da vida cotidiana.


Não menciono essas experiências para comparar duas culturas distintas nem para romantizar condições materiais difíceis. A Sibéria e o Nepal não são intercambiáveis, e minhas experiências em cada um desses lugares foram profundamente diferentes. O que os conectava para mim era uma pergunta: como os lugares onde vivemos participam da formação da nossa corporalidade?


Frequentemente observamos a postura como se ela pertencesse exclusivamente ao indivíduo. Falamos de flexibilidade, mobilidade, força ou limitação como características físicas pessoais. Mas uma postura não é apenas uma posição do corpo.


Agachar-se pode ser uma maneira de descansar, trabalhar, lavar, esperar ou conversar. Sentar-se no chão modifica a maneira como as pessoas se reúnem, aprendem, comem e compartilham o espaço. Carregar uma criança no quadril, junto ao peito ou nas costas cria um ajuste contínuo entre dois corpos por meio do peso, da proximidade, do calor e do movimento.


O sentido de cada movimento surge do conjunto da situação: a atividade, o terreno, os objetos disponíveis, as pessoas presentes e o mundo social no qual ele acontece.


Um ambiente organizado em torno do chão convida a movimentos diferentes daqueles incentivados por um ambiente organizado em torno de cadeiras. Uma vida passada entre uma mesa de trabalho, um carro e um sofá mantém determinadas possibilidades corporais enquanto oferece menos espaço para outras.


Isso não significa que todas as pessoas deveriam conseguir se agachar ou se sentar no chão. A dor, a deficiência, o envelhecimento, a saúde, a segurança e a acessibilidade moldam o movimento de diferentes maneiras. Não se trata de estabelecer outro ideal corporal, mas de reconhecer que as capacidades físicas não são formadas apenas pelo corpo.


O trabalho de Brenda Farnell sobre embodiment dinâmico nos ajuda a compreender o movimento como algo maior do que uma ação mecânica ou um símbolo cultural colocado sobre o corpo. As pessoas criam sentidos enquanto se movimentam. Nossas maneiras de sentar, caminhar, gesticular, carregar, esperar e nos aproximar dos outros participam da vida social.


Um movimento pode expressar pertencimento, respeito, gênero, posição social, resistência ou intimidade. A mesma posição agachada pode fazer parte do trabalho, do descanso, de um ritual, da dança ou da cultura rap. Sua forma física não contém um significado universal.

Isso também significa que aquilo que parece “natural” pode ser algo que o corpo pratica há anos dentro de determinado ambiente.


Alguns movimentos se tornam tão familiares que deixamos de percebê-los. Outros desaparecem gradualmente da vida cotidiana, não necessariamente porque o corpo seria naturalmente incapaz de realizá-los, mas porque o ambiente já não os convida, não os valoriza ou não lhes oferece espaço.


A arquitetura participa desse processo. O mobiliário, as roupas, o trabalho, o clima, as expectativas sociais e as condições materiais da vida cotidiana também participam.


O corpo aprende onde vive.


Mas esse aprendizado não é passivo nem permanente. As pessoas adaptam seus movimentos, combinam diferentes repertórios corporais e criam novas maneiras de ocupar os espaços. Isso se torna especialmente visível na experiência migratória, quando movimentos que antes passavam despercebidos podem, de repente, parecer inadequados, incomuns ou notáveis em outro contexto cultural.


Jovino Camargo Junior utiliza o conceito de corporalidade para descrever algo mais amplo do que o corpo físico. A corporalidade envolve a maneira como uma pessoa percebe, movimenta-se, relaciona-se e se torna presente em uma situação.


Nessa perspectiva, o corpo não é um objeto que mobilizamos separadamente para trabalhar, fazer exercícios ou realizar uma tarefa. Ele faz parte da nossa maneira de participar do que está acontecendo.


Isso me ajuda a compreender o que me marcou na Sibéria e no Nepal. Eu observava ambientes nos quais o movimento, o aprendizado, o trabalho, a proximidade e o chão pareciam menos separados uns dos outros. O corpo não desaparecia entre as atividades para reaparecer durante um momento reservado ao exercício físico. Ele permanecia envolvido na situação.


Uma ideia importante de Jovino é a reorganização da corporalidade. Reorganizar não significa corrigir a postura de alguém nem decidir como essa pessoa deveria se movimentar. Significa criar condições para que movimentos, sensações e maneiras de perceber que permaneceram em segundo plano possam voltar a ser percebidos.


O psicólogo também descreve a arte de se acompanhar: a possibilidade de perceber a si mesmo ao atravessar diferentes estados e situações, em vez de observar o corpo apenas à distância ou tentar controlá-lo.


No meu trabalho psicocorporal, a conversa permanece central. A atenção à respiração, à postura, ao ritmo, às sensações e ao movimento pode apoiar essa exploração, mas não existe um movimento correto a ser recuperado nem um corpo supostamente natural ao qual a pessoa deveria retornar.


Essa perspectiva desloca a atenção da maneira como o corpo deveria se movimentar para o modo como o repertório corporal de cada pessoa foi moldado pela vida cotidiana, pelas relações, pelos ambientes e pelas mudanças de circunstâncias.


Talvez nosso repertório corporal conte uma parte da história dos lugares onde vivemos, da maneira como trabalhamos, das pessoas junto às quais vivemos e do que os espaços ao nosso redor tornaram possível.


Observar essa história não exige julgá-la. Isso começa quando percebemos a cadeira sob nosso corpo, a distância que nos separa do chão, os movimentos que nossos dias nos pedem para repetir e aqueles para os quais quase já não oferecem espaço.


Escrito por Juliana L. Camargo


Referências

  • Camargo Junior, J. (s.d.). Aproximações ao método terapêutico da Arte Org. Material de formação não publicado.

  • Farnell, B. (2012). Dynamic Embodiment for Social Theory: “I Move Therefore I Am.” Routledge.

  • Farnell, B., & Varela, C. R. (2008). The Second Somatic Revolution. Journal for the Theory of Social Behaviour, 38(3), 215–240.

 
 
 

Comentários


Contato & informação 

Collective Reunion Santé

2360, rue Notre-Dame Ouest, sala 310
Montreal, Quebec H3J 1N4

+1 (438) 405-8682

lgbt.webp
  • Instagram
  • Facebook
  • LinkedIn

Disponibilidade presencial
Às segundas-feiras, das 16h às 20h

 

Duração: 60 minutos

 

Valor: CAD 135 por sessão

 

Idiomas: Português, francês, inglês e espanhol

Juliana Camargo - Todos os direitos reservados

Montréal, Canadá

therapieavecjuliana@gmail.com

Criado por Juliana Camargo ©2022-2026

bottom of page