Habitar a própria experiência
- Juliana LC
- 13 de jul.
- 3 min de leitura

Passamos, sem perceber, uma grande parte do nosso tempo em outro lugar que não onde estamos.
Você abre um livro e começa a ler. Vinte minutos depois, percebe que já não notava a cadeira sob o seu corpo, os pés apoiados no chão, o peso do pescoço ou os sons que vinham de fora. Durante alguns instantes, você estava completamente imerso em outro mundo.
O mesmo acontece quando dirigimos por um caminho conhecido, assistimos a um filme, deslizamos o dedo pelo celular ou pensamos no dia de amanhã enquanto alguém está falando conosco. Estamos presentes e, ao mesmo tempo, em outro lugar.
Essa é uma capacidade humana. Transitamos constantemente entre estar imersos no mundo ao nosso redor e retornar à nossa própria experiência. Talvez esse movimento seja mais familiar do que imaginamos.
A Arte Org aborda essa experiência por meio do conceito de corporalidade.
A corporalidade vai além do corpo físico. Ela descreve a maneira como existimos corporalmente no mundo: como a percepção, a atenção, o movimento, a imaginação, as emoções e as relações moldam continuamente nossa experiência. É quase como se a corporalidade fosse o ambiente onde a vida é vivida, e não apenas o corpo em si.
Essa perspectiva ganha ainda mais sentido quando consideramos as condições em que as pessoas vivem. Muitas passam anos respondendo a exigências que deixam pouco espaço para perceberem a si mesmas. Para pessoas imigrantes, pessoas racializadas, comunidades LGBTQIAPN+, pessoas cuidadoras e tantas outras que vivem na intersecção de diferentes desigualdades sociais, o esforço de adaptação raramente é apenas uma experiência individual. Ele é moldado por ambientes que frequentemente exigem ajustes constantes para pertencer, permanecer em segurança ou simplesmente ser reconhecido. Nesse sentido, o cuidado não pode ser separado das condições sociais que moldam a vida cotidiana.
A corporalidade não significa permanecer constantemente voltado para o próprio corpo. Ao longo do dia, nossa atenção se desloca naturalmente para o trabalho, para as pessoas que amamos, para nossas responsabilidades, nossos projetos e para as inúmeras situações que exigem nossa presença. Afastar-se temporariamente da experiência corporal imediata faz parte da condição humana. A questão não é se esse movimento acontece, mas se ainda somos capazes de nos acompanhar enquanto a vida continua a nos colocar em movimento.
É uma das razões pelas quais o trabalho psicocorporal me interessa profundamente.
Seu propósito não é intensificar emoções nem revelar partes ocultas de nós mesmos. Por meio do movimento, da respiração e da percepção, ele cria condições para que a corporalidade possa se reorganizar. Muitas vezes, as práticas são extremamente simples: caminhar sem pressa, perceber o apoio dos pés no chão, permitir que a respiração encontre um ritmo mais tranquilo ou deixar o olhar repousar no horizonte depois de horas diante de uma tela.
Nada de extraordinário precisa acontecer. Ainda assim, essas experiências aparentemente simples podem, pouco a pouco, transformar a maneira como nos acompanhamos na vida cotidiana.
Podemos começar a perceber que prendemos a respiração enquanto respondemos a e-mails, que trabalhamos a tarde inteira sem sequer mudar de posição, ou que dissemos "sim" antes mesmo de perceber que gostaríamos de ter dito "não". Podemos notar como os ombros se contraem sempre que sentimos que precisamos provar nosso valor ou como descansar passou a ser difícil sem experimentar culpa.
Esses momentos não são problemas à espera de serem corrigidos, mas sim momentos em que a percepção volta a ficar disponível.
A partir daí, algo sutil pode começar a mudar. Não porque a vida se torne, de repente, mais fácil, mas porque nossa maneira de nos relacionarmos com ela se transforma. Podemos reconhecer nossos limites antes de chegar ao esgotamento, perceber quando precisamos de apoio em vez de continuar sozinhos ou viver o descanso como parte da própria vida, e não como uma recompensa que só pode ser conquistada depois de sermos suficientemente produtivos.
O trabalho psicocorporal nos ajuda a permanecer em relação conosco mesmos enquanto continuamos vivendo no mundo. Talvez seja isso habitar a própria experiência: não permanecer o tempo todo dentro do corpo, mas continuar encontrando, repetidas vezes, o caminho de volta para si, enquanto a vida segue nos colocando em movimento.
Escrito por Juliana Camargo
Referências:
Camargo, J. (s.d.). Arte Org. Materiais didáticos não publicados.
Kim, J. B., & Schalk, S. (2021). Reclaiming the Radical Politics of Self-Care: A Crip-of-Color Critique. The South Atlantic Quarterly, 120(2), 325–344.
Lorde, A. (1988). A Burst of Light and Other Essays. Ithaca, NY: Firebrand Books.
Tronto, J. (1993). Moral Boundaries: A Political Argument for an Ethic of Care. New York: Routledge.



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