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Histórias de mentes instáveis


Durante o verão de 2025, li Estranhos a nós mesmos, histórias de mentes instáveis, de Rachel Aviv. Ao revisitar recentemente as anotações que fiz durante essa leitura, percebi que muitas das questões levantadas pelo livro continuam presentes nas minhas reflexões. Em vez de oferecer conclusões, esta newsletter explora por que a subjetividade, a cultura e a diversidade das formas de cuidado continuam sendo fundamentais para compreender a experiência humana.


"Você precisa procurar ajuda."

Essa frase atravessa diferentes momentos da vida. Às vezes a escutamos; outras vezes, somos nós que a dirigimos a alguém.

Mas que tipo de ajuda? Ajuda para quê? Segundo qual ideia de saúde? Segundo qual cultura? Segundo qual forma de compreender o sofrimento?

Em um momento em que os debates sobre saúde mental, medicalização e reconhecimento das diferentes formas de cuidado voltam a ocupar espaço nas instituições e na esfera pública, essas perguntas continuam sendo importantes para mim. Como profissional, mas também quando deixo de lado o papel de terapeuta e reflito sobre a natureza humana.

Enquanto lia Histórias de Mentes Instáveis, de Rachel Aviv, percebi como muitas das nossas certezas sobre saúde mental são recentes, culturalmente situadas e continuamente transformadas.


Rachel Aviv é jornalista da The New Yorker e acompanha, durante anos, a vida de pessoas que receberam diferentes diagnósticos psiquiátricos.

O livro não pretende negar, e muito menos eu, a existência do sofrimento psíquico nem desacreditar a psiquiatria ou a psicologia.

O que ele faz é perguntar o que acontece quando uma pessoa passa a ser conhecida principalmente pelo diagnóstico que recebeu.

Ao longo das histórias, Aviv mostra que o sofrimento não existe isolado da cultura, da história, das relações, da política, da religião ou das condições materiais de vida.

Foi justamente esse lugar da subjetividade que mais me chamou atenção e que dialoga profundamente com o enquadramento da minha prática como terapeuta psicocorporal.


Nesta leitura, quatro aspectos permaneceram comigo.

  • a subjetividade como parte essencial do cuidado;

  • a influência da cultura sobre aquilo que chamamos de doença mental;

  • a importância de integrar diferentes formas de cuidado, em vez de colocá-las em oposição.


Uma das passagens que mais me marcou descreve uma transformação ocorrida na psiquiatria norte-americana durante os anos 1990.

Rachel Aviv relata que, com as mudanças nos seguros de saúde, os longos relatos sobre a vida dos pacientes passaram a ser substituídos por listas de sintomas mensuráveis.

Ela escreve: "O tratamento de doenças mentais devia ser visto como mercadoria, e não como parceria."

Mais adiante, citando o antropólogo Alistair Donald:

"O paciente real é substituído por descrições comportamentais, e com isso se torna desconhecido."

Essa passagem convida à reflexão sobre uma questão importante: até que ponto nossas categorias diagnósticas conseguem captar a complexidade da experiência humana? Em que momento elas deixam de ser ferramentas de cuidado e passam a ocupar o lugar da própria pessoa?


Outra parte que me chamou atenção acontece quando Aviv acompanha profissionais na Índia. Ela mostra como muitos conceitos da psicanálise europeia encontraram dificuldades para dialogar com uma cultura na qual espiritualidade, devoção e vida cotidiana permanecem profundamente entrelaçadas.

Rachel Aviv apresenta a reflexão do psicanalista indiano Sudhir Kakar:

"A jornada mística não é separada da vida cotidiana; ela permeia e fundamenta a vida em suas camadas mais profundas."

Também cita N. C. Surya, diretor do All India Institute of Mental Health:

"Acabaremos como caricaturas ineficazes da teoria e prática psiquiátrica ocidental ou reduziremos nossos pacientes a um conjunto de jargões estrangeiros prestigiosos."

Esses trechos não sugerem que uma abordagem seja superior à outra. Eles lembram que nenhuma teoria nasce fora de um contexto cultural e que nenhuma cultura esgota todas as formas possíveis de compreender o sofrimento humano.


Uma das frases que mais me tocou foi escrita por uma pessoa acompanhada pela autora:

"Sou o homem que todos sabem quem é, mas ninguém conhece."

É difícil não pensar no quanto um diagnóstico pode oferecer pertencimento e, ao mesmo tempo, reduzir alguém a uma única narrativa.

Entre receber um nome para o sofrimento e passar a ser conhecido apenas por esse nome existe uma diferença importante.

Na minha prática, esse trecho reforça algo que considero fundamental: nenhuma técnica substitui a curiosidade pela experiência singular de quem está diante de nós. Duas pessoas podem compartilhar o mesmo diagnóstico e, ainda assim, viver experiências profundamente diferentes.


Ao longo do livro, Aviv apresenta pesquisas e profissionais que lembram que o sofrimento psicológico não nasce apenas da biologia.

Ela cita bell hooks, Vikram Patel, além de psiquiatras e pesquisadores que mostram como racismo, pobreza, violência, migração, discriminação e condições sociais influenciam a forma como o sofrimento é vivido e também interpretado.

Em um dos trechos citados por Aviv, bell hooks escreve:

"Muitos de nós, negros, receiam que falar sobre nossos traumas por meio da linguagem da doença mental leve a uma interpretação enviesada."

Mais adiante, Rachel Aviv também apresenta a crítica de alguns profissionais à tendência de explicar determinados sofrimentos exclusivamente pela química cerebral, deixando em segundo plano as condições sociais que contribuíram para aquele estado.


Essas reflexões não diminuem o papel da medicina, mas ampliam a conversa.

Medicação, psicoterapia, relação de ajuda, comunidade, espiritualidade, condições materiais de vida e políticas públicas não competem entre si, ao menos não deveriam, porque elas respondem a dimensões diferentes da experiência humana.


Ao terminar este livro, fiquei com a impressão de que Rachel Aviv não nos convida a abandonar as teorias existentes nem as diferentes formas de cuidado. Ela nos convida, antes, a reconhecer que cada uma delas ilumina apenas uma parte da experiência humana.


O que permaneceu mais vivo para mim não foi uma discussão sobre diagnósticos, mas um lembrete de que cada pessoa vivencia o sofrimento a partir de uma combinação singular de história, relações, cultura, corpo, linguagem, crenças e condições sociais. A subjetividade não é um elemento que se acrescenta depois; ela faz parte da maneira como a experiência humana é vivida.


Essa perspectiva também dialoga profundamente com a minha prática como terapeuta psicocorporal. Meu trabalho consiste em acompanhar uma pessoa enquanto ela explora a própria experiência, permanecendo curiosa em relação ao sentido que atribui ao que está vivendo.


Por essa razão, não vejo a psiquiatria, a psicoterapia, terapias breves, a terapia psicocorporal, os recursos comunitários, a espiritualidade ou a saúde pública como formas concorrentes de compreender o sofrimento humano. Cada uma responde a perguntas diferentes. Cada uma oferece recursos distintos. Há momentos em que uma abordagem se torna essencial; há outros em que várias podem coexistir e se complementar.


Talvez o principal lembrete deste livro seja que preservar a subjetividade de uma pessoa exige resistir à tentação de reduzir uma vida a uma única explicação. Quanto mais conseguimos colocar diferentes perspectivas em diálogo, maiores são as nossas chances de nos aproximarmos da complexidade de outro ser humano com conhecimento e, ao mesmo tempo, com humildade.


Escrito por Juliana Camargo.

 
 
 

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